segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Sala de criação de livros infantis

Minha sala de estar não foi feita apenas para estar na sala. Vamos criar juntos? Venha para a Sala de Criação com o escritor e ilustrador Hermes Bernardi Jr.!

Clique para ampliar!



sexta-feira, 18 de julho de 2014

Diário de viagens

Julho começou bastante intenso de visitas à escolas. Estive no Colégio São José, de São Leopoldo, conversando com leitores de meus livros E um rinoceronte dobrado, Dez casas e um poste que Pedro fez, Planeta Caiqueria (todos da Editora Projeto) e Doido pra voar (Editora Artes e Ofícios). Além dos encontros pela manhã e à tarde, houve um almoço com o autor para pais e filhos. Foi muito lindo esse momento que ocorreu antes de eu visitar a exposição de trabalhos. Entre os trabalhos havia casas enormes e um poste que, sim, acendia a luz! Durante o almoço, as crianças disputaram sentar à mesa comigo para continuarmos as conversas sobre palavras, ilustrações, histórias. Achei muito bacana a ideia de almoçar com as famílias. Pude conhecer alguns pais de leitores e trocar algumas boas ideias sobre ler em casa, o que sempre recomendo que se faça desde quando os bebês estão no ventre. Tiramos fotos, comemos delícias, rimos e nos divertimos como se fôssemos uma grande família ligada pela Literatura. Obrigado à coordenação pedagógica, direção e professores, pelo lindo trabalho.

Na semana seguinte, estive na Feira do Livro do Colégio Metodista Americano, em Porto Alegre, quando conversei com crianças que, a partir da minha visita, iriam ler Planeta Caiqueria, editado pela Projeto e ilustrado por André Neves. Os pequenos tiraram perguntas incríveis de dentro de suas cacholas. Precisei me desdobrar em mil para tentar responder de forma que eles compreendessem, já que são crianças da educacão infantil e que recém estão se familiarizando com letras, algumas palavras e a compreensão de mundo. Nestes momento é que acabo dizendo coisas que acabarão me oportunizando escrever novas histórias, por que sou pego de surpresa, tendo que 'medir' as palavras, poetizar a resposta. Nesse instante viro criança e muitas histórias me veem para a barriga das ideias. Obrigado a todos, pelo carinho e pela oportunidade de me renovar com a acolhida.

Ontem, mais uma escola. Desta vez, em Novo Hamburgo, como autor homenageado da Feira do Livro da EMEF Anita Garibaldi. Muito generosas, as professoras da comissão de organização da Feira convidaram as crianças da EMEI Pica-pau, ali do lado, que veio com seus pequerruchos fofos e lindos. Um encontro pela manhã, outro à tarde. Um, com sol. O outro, com chuva. As crianças se apresentaram e em seguida conversei com elas, respondi perguntas e contei Vá dormir, princesa! Leram muitos dos meus livros e fizeram muitos trabalhos que estavam expostos por toda a escola. A escola estava virada numa galeria de Arte, pensei. Quando publicamos um livro nem sabemos que ali dentro cabem tantos mundos que só os leitores conseguem materializar com sua criatividade e disposição.

Ganhei vários presentes. De imediato, fico pensando em como e onde vou armazenar. Depois, em casa, mais calmo abro os embrulhos, observo, leio com atenção... e aí, bem, aí é só emoção.

À direção e professores da EMEF Anita e à direção da EMEI Pica-pau, ambas de Novo Hamburgo, meu muitíssimo obrigado!



Penso sempre que as crianças sabem exatamente o valor da reciprocidade. Querem nos dar algo por que demos algo a elas: uma história com a qual puderam se identificar, talvez. Outras, acho, que ao verem um adulto se dando o direito de ser verdadeiramente esquisito (o que pode parecer ridículo para alguns, para as crianças e também em mim é genuíno) querem se aproximar, querem fazer parte disso entregando aquele desenho mais bonito que já fizeram. É uma troca. Dou-lhes histórias e verdade, querem retribuir com o melhor que há nelas: sua produção, parte de suas histórias, sua emoção verdadeira. Obrigado, crianças!





Cada presente tem sua particularidade. Escolho mostrar detalhada e especialmente um deles por que se decidisse escrever sobre todos eles esse texto longo iria ficar mais longo ainda. 

A Linha da vida é um livro gigante (segue abaixo), artesanal, confeccionado pelo 4o. ano B com a ajuda da Professora Shanna Bortolotti Costa. Trata-se de 'alguns momentos da vida de Hermes Bernardi Jr.' Achei genial esse trabalho, além de artisticamente inspirador.





















   

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Um percurso ainda incerto


Iniciei a escrevê-lo em 2009. Desde então, vim realizando edições a partir de inúmeros leitores a quem confiava a leitura. Apresentei-o a duas editoras. Apesar de alguns elogios à escrita, ao estilo, à forma, e também ao conteúdo, não houve interesse em publicá-lo por entenderem que o público escolar não teria interesse em promover debate sobre alguns temas abordados na obra e que foram classificados como  'polêmicos". 

Um tanto frustrado, pois imagino que o papel das editoras é, também, o de promover debates e reflexões, mas compreendendo que, por vezes algum texto nosso não corresponda a linha editorial de algumas editoras, insisti uma vez mais quando a Editora Edelbra, em 2014, solicita-me um texto juvenil para publicá-lo ainda no primeiro semestre deste ano. Grata surpresa foi receber um aceite quase imediato, com algumas sugestões. Eu precisaria fazer algumas concessões. A algumas, acolhi. Fazer um livro é também fazer junto aos editores. Da orelha, feita gentilmente pela respeitadíssima especialista em Literatura da UFRGS, Professora Márcia Ivana de Lima e Silva, segue o texto na íntrega. Na edição, por necessidades de atender questões técnicas do projeto gráfico, o original sofreu mudanças.

Agradeço à Márcia, pela consistência e generosidade de sua orelha, que ouviu ao meu texto com atenção, jogando para muito além as palavras ainda incertas desta minha caminhada que se inicia na Literatura Juvenil.  

A marca da palavra


Quero ficar no teu corpo
Feito tatuagem
Que é pra te dar coragem/
Pra seguir viagem
Quando a noite vem

Tatuagem - Chico Buarque


Ao construir sua teoria para o texto literário, Mikhail Bakhtin estabelece a palavra como material privilegiado da vida humana, porque ela tem, ao mesmo tempo, o papel de instrumento de veiculação de idéias e o papel de material da vida interior, o que a torna o primeiro meio de expressão da consciência individual. A confluência dessas duas dimensões da palavra aflora nitidamente quando da leitura de Eu é um outro, primeira narrativa juvenil de Hermes Bernardi Jr., temos a palavra em estado profundo, através do relato de Eduardo sobre dúvidas e descobertas, próprias da idade, repleto de poesia e encantamento.
A estratégia de colocar Edu numa sessão de análise dá a possibilidade de trabalhar com a dupla dimensão da palavra: a palavra que presentifica sentimentos e veicula idéias e a palavra que recupera o passado. O leitor atento tem de acompanhar a narrativa, de modo a perceber o jogo de ação e memória, que se imbrica na história do jovem, construindo um enredo que é igualmente representativo do individual e do coletivo.
No processo de constituição de sua identidade, Eduardo busca as palavras que o definam, aquelas que se tornem sua marca e que também marquem o outro. Esse encontro, repleto de descobertas, de avanços e de recuos, imprime no sujeito, muito mais importante do que certezas, dúvidas, elemento essencial para que consiga ser um e outro, num movimento construtivo tanto individual quanto coletivamente. Acima de tudo, Eu é um outro é um libelo a favor do sujeito e da palavra lírica que alcança sua dimensão social.

Márcia Ivana de Lima e Silva
Professora do Instituto de Letras - UFRGS/RS


segunda-feira, 11 de novembro de 2013

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Um relato

No Rio, a trabalho, converso com uma senhora da antiga aristocracia carioca. Vive numa casa bacana, mas hoje precisa trabalhar e colocar um dos quartos para locação por temporada no bed and breakfest, para ajudar nas despesas. No passado, ela viajava pelo mundo todo. Hoje 'não consigo ir à Europa três vezes por ano como de costume. O dinheiro não dá.' Conta-me que precisou dispensar empregados informais, entre eles, sua empregada. 'Tive de combinar com outras amigas para que minha empregada fizesse apenas duas horas diárias em minha casa e na duas horas diárias na casa delas. Revezamos os seus serviços. Hoje, quem mantém a limpeza sou eu, depois que ela faz o grosso da faxina. Este ano ela foi à Europa, veja você! Limitar a duas horas de trabalho em cada uma das casas foi a forma que encontramos de não caracterizar vínculo empregatício, para não ter de assinar a sua carteira de trabalho. Ficaria muito caro pagar seus benefícios (leia-se direitos). Essas mudanças estão alavancando os pobres para uma outra categoria econômica, mas estão nos achatando. Você me entende, não?' 

Respondi, 'não sei se entendo. Na minha casa eu mesmo faço a faxina. É um apto pequeno. Nós só tivemos empregados quando eu nasci. Mas foi por pouco tempo. Meus pais sempre nos estimularam a trabalhar. Mas a senhora não acha que essas medidas são uma forma de regularizar e colocar em ordem algumas coisas meio bagunçadas do trabalhador informal?' Ela ficou em silêncio. Levantou-se e de maneira muito elegante pediu-me licença, precisava subir ao andar superior, descansar, no dia seguinte teria hora no salão, fazer unhas e cabelo. 

Não consegui deixar de pensar sobre a solução que ela encontrara para fazer economia. 'Duas horas em cada casa não caracteriza vínculo empregatício'. 

A conversa se deu no pátio de sua casa estilo colonial, dois pisos, pé direito de 5m cada, pátio com belas árvores, vários cães de raça, luminárias de jardim estilo barroco, mobília do tempo do império, invejável biblioteca, molduras de prata com fotos de família. Uma casa em bairro nobre e agradável que ela disse 'Não é a melhor parte do bairro. A vizinhança, aqui, é de italianos que enriqueceram fazendo pães (leia-se trabalhadores). Não tiveram preocupação em construir casas bonitas como esta. Descaracterizaram o bairro. Tranquiliza-me saber que os altos muros nos protegem de ver o que fizeram no entorno. Eu tenho procurado manter tudo como sempre foi, pelo menos aqui dentro, no que é meu. Antigamente, quem comprou casa aqui foi por conta de que lá embaixo, perto do Sambódromo, era um nascedouro de pernilongos e houve a epidemia. Quem pôde, comprou casa aqui em cima para se proteger. Os pernilongos não sobrevivem aqui por causa da temperatura. Hoje o bairro está muito mudado. Pessoas que a gente nem sabe quem são e de onde vieram. Meu marido quer mudar. Mas eu tenho um apego enorme com a casa. Mamãe morreu aqui, ali - aponta para um banco de praça lindamente instalado no jardim iluminado por postes do Rio antigo - Você pode ficar à vontade, viu! Vou me recolher. Está ficando tarde. E aqui nós costumamos dormir antes das 22hs. Ah, não dê muita conversa para o caseiro. Ele está conosco há anos, mas à noite ele bebe e diz bobagens. 
- Devo apagar as luzes do jardim antes de me retirar?
- Não se preocupe com isto. Alcides faz isto. Boa noite.
Assenti com meio sorriso.
- Boa noite.
Antes que ela se retire ainda tenho tempo de lhe dizer:
- Sou de família italiana. Meu bisavô passou muito trabalho para montar sua vida aqui, no pós guerra. Chegou cheio de filhos. Tinha medo. Meu avô, o caçula, aprendeu o serviço de pedreiro e depois virou engenheiro na região onde meu pai nasceu. Muita casa que ele construiu ainda está em pé, como esta. Com a força do seu trabalho, deu escola para todos os onze filhos. 
Ela baixa o olhar. E se retira. Um dos cães late. 'Seo' Alcides, o caseiro, sai do fundo do quintal, do interior das duas peças onde vive na parte mais escura, ao fundo do jardim. 
- Boa noite! Desculpe, o cachorro se soltou do canil. Ele está lhe incomodando?
- Boa noite. Não incomoda nada, não. Eu gosto de cachorros. Não me dou bem com os gatos. Bonito esse jardim. O senhor quem cuida, né?
- Faço o que posso. Tenho amor por essas plantas. 
- Muito bonito o seu trabalho.
- Obrigado.
- O senhor trabalha há muito tempo, aqui?
- Desde sempre. Desde garoto.
- Foi o senhor quem colocou as plaquinhas com o nome de cada planta?
- Coloquei, mas não escrevi.
- Não?
- Não sei escrever, meu filho.
Silêncio.
- O senhor, escreve, não é? Dona ..... me disse. 
- Escrevo. 
- Acho bonito quem sabe escrever.
- Espere um instante, por favor, 'Seo' Alcides.
- Espero, sim. Nunca saí daqui. - Ele ri.
Vou ao quarto e trago um exemplar de meu livro Conchas.
- Para o senhor.
- Para mim, meu filho? Mas eu não sei ler.
- Veja as imagens. Elas também contam uma história. 
Ele pega o livro:
- Bonita capa.
- Obrigado. 
- Não tem porquê.
- O senhor não sabe ler por que não estudou, 'Seo' Alcides? Ou não quis estudar?
- Não tive tempo. Muita coisa pra fazer nessa casa. e agora eu faço tudo sozinho. 
- O senhor sabe que pode estudar, não sabe? Há cursos noturnos para adultos que desejam aprender a ler e escrever. Deve ter algum aqui perto. 
- Eu tô velho. Nunca consegui tempo pra estudar. Esse jardim sempre foi a minha vida. Dá trabalho cuidar de um jardim como esse.
- Esse seu trabalho é muito bonito, mas aprender a ler e escrever também é bonito. Bonito pro senhor, sabia? Já pensou no dia em que o senhor conseguir ler o que está escrito nas páginas dos livros? Desse livro? Ou nas plaquinhas das plantas desse seu jardim?
Ele ri. Passa a mão sobre a capa do livro.
- Esse jardim não é meu, meu filho. Bonito esse seu trabalho. 
- Não mais bonito do que o seu. 
- Obrigado, meu filho. 
- Manter as plantas bonitas e verdinhas é uma coisa que nem todo mundo sabe fazer. Tem gente que deixa morrer a planta dentro de casa.
O cachorro se aproxima, abana o rabo para mim. Passo a mão no cangote dele. Pula ao meu lado, no sofá. 
- Sai daí, Valente!
- Pode deixar. Ele não me incomoda.
O céu está limpo de nuvens. A temperatura agradável. 'Seo' Alcides acende um cigarro. Faz-se uma pausa em nossa conversa. Ele vai até uma das árvores e retira uma ou duas folhas já amareladas. Me olha:
- O senhor acha mesmo que posso aprender a ler e escrever, na minha idade?
Da janela do piso superior ouço a voz da minha anfitriã:
- Seu Alcides, tranque o portão e apague as luzes! Jã está tarde.
Ele sorri, resignado e se retira em direção ao portão. 
- Vem, Valente!
Eu levanto para me retirar.
- Muito obrigado, meu filho, pelo livro. Boa noite pra você!
- Pro senhor também. 
Antes que ele desapareça na escuridão, a caminho do portão de entrada, eu ainda tenho tempo de dizer:
- Pode.
- O que foi, meu filho?
- Sim, o senhor ainda pode aprender a ler e escrever.
Ele sorri. Eu me retiro.

No dia seguinte, a mesa posta para o café na grande sala de jantar. Guardanapos de pano. Leiteira fumegante. Mamão cortado. Pão integral feito em casa. A enorme janela, aberta para o pátio. O sol está em todo o lugar. No banco do jardim o 'Seo' Alcides folheia o livro. Passa a mão rude sobre a página, como se tocasse a flor. Tenho a leve impressão de ler um sorriso em seus olhos.

sábado, 28 de abril de 2012

H no ABZ!

Gravação do programa ABZ do Zirado, da TV Brasil, no estúdio no Rio. Fiquei meio flicts, perto dele, mas foi foi bem bacana a entrevista que vai ao ar na terceira temporada do programa, em maio de 2012. Saiba mais, aqui


quarta-feira, 18 de abril de 2012

segunda-feira, 9 de abril de 2012

quinta-feira, 29 de março de 2012

Entre Estrelas e Letras

Alegria! Alegria! Por três anos seguidos fui carinhosamente homenageado no Entre Estrelas e Letras, programa anual de incentivo à leitura e à escrita, realizado em escolas da cidade de Morro Reuter/RS, onde há o Obelisco dos Livros. Um monumento de onze metros de altura, representado por uma pilha de 72 livros e construído diante do principal acesso à cidade, o obelisco foi criado para eternizar a paixão de seus moradores pelos livros e pela leitura. 

Morro Reuter ostenta um índice invejável de progresso social: 98,4% da população é alfabetizada. Amanhã, em evento literário na Comunidade Evangélica o Prefeito, Sr. Adair Ricardo Bohn e o Secretário da Educação e Cultura, Sr. Márcio André Malgarin, junto de suas digníssimas esposas, irão me anunciar à comunidade como Patrono da Feira de Livros 2012 da cidade, que ocorre em outubro. Será que eu seguro a onda? 

Arquivo fotográfico dos eventos em anos anteriores, aqui:

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Um desabafo. Tomara ecoe!

Peço sua generosa atenção neste momento. E paciência. Em tempos de links que se abrem e se fecham num segundo, sei que este pedido pode parecer revoltante, mas insisto:perca alguns minutos nesta leitura. Obrigado.

Há uma questão que anda ocupando minhas ideias e tirando meu sono. Se você acredita no artista não deveria ser de suma importância propiciar a este um modo de que sobreviva de sua Arte? Explico: desde que saí de casa - anos 80 - escolhi viver da minha arte enquanto meu pai insistia que eu fosse eletrotécnico. Estava eu cursando o ensino médio na ETFPel para atender ao seu sonho quando descobri o teatro, e dentro dele a literatura. Nestas coxias fiz uma escolha que passeia entre os dois e nada tem a ver com transistores. Foquei na literatura para crianças como forma principal da minha expressão. Fiz esta escolha e decidi que viveria disto. Comecei a publicar em 1998, com financiamento do Fumproarte - fundo este ao qual sou eternamente grato. O primeiro título tem sido comercializado e reeditado até hoje. Foi a partir deste estímulo que assegurei meu lugar na LIJ brasileira. Mas em quatorze anos de trabalho nunca vivi situação semelhante a qual me encontro, com pagamentos de cachês atrasados a mais de três meses e sem dinheiro sequer para pagar a comida do dia-a-dia.

Tenho vivido de favores dos comerciantes do bairro onde moro. Amigos que fiz ao longo dos onze anos em que aqui resido. Tal situação não se restringe a mim. Muitos autores da palavra e da imagem estão vivendo esta situação. Muitos não o dizem. Nossa sociedade foi preparada para excluir aquele a quem declara-se perdedor. Eu não o sou. Meus livros tem sido comprados por governos de todos os cantos do Brasil. Meus livros tem sido referência internacional, haja visto post anterior, mas estou esperando que as prefeituras e órgão promotores de eventos literários voltem de férias, aguardem a verba dos IPTUs que aguardam no caixa único, para que aí, então, eu possa ver a cor do dinheiro pelo qual lutei com dignidade e respeito, cumprindo com tudo a que me foi pedido. As dívidas de pessoas físicas, claro, as que menos ameaçam a vida jurídica destes órgãos, sempre serão as últimas a serem sanadas. Somos fracos. Uma vergonha! Nós, autores, sempre cumprimos com nossos compromissos de forma profissional e bastante satisfatória. Fazemos malabarismos em nossas agendas, saimos de nosso trabalho - escrever - para atender aos eventos e nos mantermos à vista do leitor. Caso contrário, somos esquecidos.

O Brasil, o Rio Grande do Sul, são territórios de esquecimento. Prefeituras se esquecem. Prefeituras querem novidades. Prefeituras não prestam atenção em trajetórias e em quem leva a sério o seu trabalho. Prefeituras querem autor-show. Querem quem não cobra cachê, ou quem vai aos eventos por cinquenta, oitenta livros vendidos. E a literatura? Ah, esta não é importante desde que pareçam incentivá-la, que se dane a cadeia criativa! Que recebam o seu pró-labore quando houver possibilidade. Que esperem! Temos sido os últimos a receber nossos pró-labores, ínfimos, pra dizer a verdade. Nós, que produzimos literatura, somos os últimos a receber nossos valores que são nossos por direito e que são boa parte do que nos garante nossa subsistência. Em país que lê pouco e que constrói a imagem de que lê mais, os autores são a última instância a desfrutar dos lucros.

Desculpem-me usar este mural como muro das lamentações, mas não acredito que prefeituras e órgãos promotores de eventos literários estejam, de fato, precocupados com a qualificação e formação do leitor. Caso estivessem, tratariam de pagar de imediato quem escolheu viver da arte da escrita e da ilustração, em vez de pagar primeiro os toldos que encobrem a boa literatura. Para tudo tem uma explicação dita plausível, a que temos de ouvir calados para não parecermos chorões: precisa passar no setor tal, no setor esse, no setor aquele e só então poderemos liberar os pagamentos. Ocorre que os setores estes, certamente estão preparando as fantasias de Carnaval e nós vamos ficar com nossas lantejoulas sem brilho.

Realizamos projeto de capacitação de jovens mediadores. Estes, contavam com o pequeno cachê para levar para suas casas e colocar algo mais na cesta básica da família de poucos recursos. Estavam felizes por não cederem às drogas oferecidas na esquina para trilhar outras possibilidades no mundo da leitura. Sequer estes valores nos foram até então repassados para que possamos pagar jovens que se dedicaram a mediar leitura em comunidades de Porto Alegre. Que esperança estamos plantando no coração destes jovens? De que seus sonhos, sim, podem se realizar? De que a literatura vale a pena? Então, além de não nos incentivarem a sermos apenas autores, e podermos acreditar nesta possibilidade de vida, em Arte, também não incentivam que incentivemos a outros, ou que nos sintamos gratos por aproximar jovens leitores da possibilidade do sonho, do devaneio que o livro provoca. Eu não sou médico que escreve. Não sou professor que escreve. Não sou jornalista que escreve. Não sou aposentado, e escrevo nas horas vagas. Escrevo todos os dias, como aprendi com Luiz Antonio Assis Brasil. 



Assim como eu, sei de muitos que escrevem todos os dias de segunda a sexta-feira, no mínimo 4 horas por dia. Este é nosso meu ofício. Foi nossa escolha e, por termos insisitido e relaizado um bom trabalho, temos tido reconhecimento em território nacional. Não queremos nos arrepender de tê-la feito. Somos escritores. E ponto. Queremos viver disto. Fizemos esta escolha. Temos orgulho de tê-la feito, bem como ter conseguido nos manter disto, além de trazer junto outros que também hoje se integraram ao mercado editorial. O que está faltando é mais respeito com nosso ofício. Falta-nos que muitos promotores de eventos literários e prefeituras olhem com mais dignidade ao trabalho que realizamos para tentar melhorar o mundo em que vivemos. Caso contrário, montar tendas e toldos coloridos onde se possa encher de livros embaixo não passará de balela. É muito bonito ter alguns de nós como cereja do bolo - alguns até dançam e cantam e pulam e se fantasiam para cumprir com a necessidade destes eventos - prefiro que os bailarinos e músicos profissionais o façam, pois o fazem lindamente o que não cabe a mim fazer, pois minha escolha foi outra. Minha escolha não foi dançar e cantar, não desenvolvi tal competência. Preferi desenvolver outra: escrever e ilustrar para crianças, e por vezes, contar histórias e dirigir espetáculos infantis. 

Tenho feito meu trabalho de forma correta, embora alguns prefiram ignorar. Negando, eliminamos a concorrência. Estratégia que o capitalismo implantou em nossas convivências. A arte da guerra também surgiu para implantar atitudes militares em nosos fazeres diários. Muitos destes artistas se deixaram acometer por elas, passando a se movimentar como em trincheiras, mesmo tendo ao seu lado o melhor dos amigos, o que mais acreditava no trabalho do outro. Por que vivemos na sociedade do espetáculo, do líquido, do descartável, do BBB, da eliminação (Vivas Baumann!), reproduzimos este comportamento já incrustado em nosso cotidiano. 

Sim, temos sido a cereja de muitos bolos. Há todo o tipo de estratégia para sê-lo - inclusive do bolo de não sermos pagos - mas quando chega a hora de partir o bolo, o outro, aquele docinho, ficamos com as migalhas e um pedido enorme de compreensão. Sim, por que além de cerejas temos de ter a grandeza da melancia, a de compreender a tudo e todos, e calar, afinal, somos escritores, conhecemos melhor que ninguém a natureza humana, nadamos em dinheiro, vivemos de ócio criativo e blá, blá, blá. Isto, quando somos convidados a partilhar do bolo, claro, por que em outras vezes o que nos cabe é lavar os pratos e lamber os beiços de vontade de colocar um pouco mais de respeito ao tempo que passamos debruçados sobre nossas escrivaninhas tecendo delicadamente um novo texto. Muitos autores que não vivem somente da escrita talvez não concordem comigo. Isto talvez não os afete. É natural. Sobre aquilo que não me afeta em particular eu não me pronuncio (dá-lhe Maquiavel!). Mesmo assim eu pediria apoio de replicarem esta nota, sendo generosos em vez de individualistas. Creio não ser esta situação uma especificidade minha. Tenho ciência de que atitudes como estas, de atrasos de pagamentos de cachês e de desrespeito ao papel do artista, do escritor mais especificamente, tem sido disseminadas há anos, de uma forma cruel e aniquiladora. Querem nos dar um cansaço. 

Tem horas que dá vontade de morrer a continuar mendigando o que nos é de direito. E vivemos calados, temerosos de sermos excluídos das "cartas de clientes". No fundo tudo parece ser apenas, como diz uma amiga mui querida: livro e leitura no Brasil é, e tão somente, business. Nada mais. Triste constatação. Tenho resistido a pensar assim. Tenho desviado de crer que esta seja a mais pura verdade. Uns ganham e outros, os operários, não ganham nada. Nós, autores, temos sido os títeres deste espetáculo: escolhemos encantar, como os bonecos do teatro em Pinóquio, e nos deparamos com o Cospefogo a manipular nossos movimentos e nos alimentar quando bem o queira. O que me incomoda neste cenário é que sequer denotamos qualquer sinal de humanidade. Temos cumprindo com o esperado: estamos inanimados e mudos. E, se dissermos, tenho a impressão de que Cospefogo irá esticar nossas cordinhas e bradar: Fechem as cortinas!

PS: Ah! Não estou aqui para me vitimizar. Não preciso disto. Tenho corpo, voz e força nos braços para trabalhar. É o que tenho feito durante os três meses de barriga vazia, embora pleno de imaginação. Além de ter um coração pleno de otimismo, ainda, e bem fundamentado na resiliência. E nunca, nunca, fugi da lavoura para descansar à sombra. Do que trata este desabafo é falar de respeito aos trabalhadores das palavras e imagens. Apenas isto, um nosso direito.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

No catálogo FNLIJ para Bologna/Itália - 2012

Acabo de receber a notícia: o livro Pé de sapato - uma história de muitas histórias, escrito e ilustrado por mim e editado pela Ed. Biruta, de São Paulo, é uma das obras de referência do Catálogo Selection of Brazilian Writers, Ilustrators and Publishers, publicado pela FNLIJ - Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil para ser distribuído na Bologna Children Books Fair 2012, que acontecerá em Bolonha/Itália no final do mês de março de 2012. 

Sinto-me honrado em ter um trabalho selecionado para esta importante publicação que é referência do que de melhor vem sendo produzido para crianças e jovens no Brasil, bem como sinto-me muito feliz em figurar nas páginas junto a tantos outros amigos escritores e iustradores a quem admiro muito. Alguns, inclusive, que leio-os desde a infância. Vivas!

Deixo também meu abraço aos que não constam no catálogo e que tem feito um trabalho tão ou mais belo ainda pela LIJ brasileira, através de sua dedicaçnao às imagens e as palavras para livros infantis.

Aqui, o catálogo na íntegra. Hermes, Editora Biruta e Pé de sapato, na página 39.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Novidade muito boa!

Dia 11/11/2011 a Biblioteca Hermes Bernardi Jr. abre suas portas para leitores em Dois Irmãos, no interior do Rio Grande do Sul. A biblioteca fica na Escola 29 de setembro e o convite veio há alguns meses. Faltavam alguns detalhes quanto à data de inauguração e a finalização do mobiliário inspirado em livros que escrevi.

Estou muito feliz pelo convite e espero que muitos leitores possam viajar muito na imaginação quando colocarem seus corações dentro dos livros do acervo. Como presente para a biblioteca, este padrinho irá doar um kit de livros de outros autores que admira.

Muito obrigado à direção, aos estudantes da escola, professores e à Adriana Fuhr, que fez o convite.

sábado, 29 de outubro de 2011

Começa hoje!

Ontem realizamos a capacitação de mediadores da nova etapa do Projeto Tapete Mágico - Espaço de Leituras Ano VI, na Bibloteca Moacyr Scliar, no Cais do Porto - Área Infantil e Juvenil da 57a. Feira do Livro de Porto Alegre. Formamos cinco novos comissários de bordo. Dois de São Leopoldo, dois de Canoas e um de Porto Alegre.

Hoje vamos para nossa primeira atividade em campo nesta nova etapa em que o projeto prevê a formação de mediadores de leitura. Nossa aterrissagem será na Iha Grande do Marinheiros, para a comunidade ribeirinha da ilha. Das 14 às 17hs. Confira o cronograma de pousos e decolagens no folder a seguir. Divulgue!

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Programas Autor Presente e Autor nas Escolas, em Nova Petrópolis

Hermes Bernardi Júnior fascina crianças e jovens de Nova Petrópolis
Autor diverte com suas histórias e mostra que através de um livro todos podem ser tudo o que quiserem

“Na biblioteca da minha escola era onde eu me encontrava. Abria um livro e podia ser um herói, um príncipe, uma bruxa, tudo que eu quisesse.” Foi com essa frase que o escritor Hermes Bernardi Júnior começou a dividir suas experiências literárias com os alunos de 5ª a 8ª série das escolas São José e Piá.  O autor, que veio a Nova Petrópolis através do projeto Autor nas Escolas, conferiu apresentações de trabalhos dos alunos, respondeu as dúvidas dos mesmos e fez uma simulação de ilustração.
Para receber Hermes em sala de aula, as crianças leram diversos de seus livros, entre eles “Doido pra Voar”, “E um Rinoceronte Dobrado”, Dez Casas e um Poste que Pedro Fez” e “Planeta Caiqueria”. A partir das obras do autor, os professores fizeram uma série de trabalhos artísticos e de escrita com seus alunos. “Com certeza já saio dessas escolas outra pessoa, só de ter entrado em contato com todos esses trabalhos feitos com inspiração nos meus livros”, disse Hermes, encantado com a criatividade dos jovens.
O autor contou fatos da sua infância e adolescência e expôs como os livros sempre o auxiliaram nas situações cotidianas. Além disso, mostrou aos alunos como deixou sempre fluir a sua imaginação através das histórias que lia. “Somos resultado daquilo que vivemos, imaginamos e lemos. Escrevo para contar histórias e fazer as pessoas se identificarem e se emocionarem”, disse.

Encanto dos alunos por “Doido pra Voar”
Hermes, ainda, contou aos alunos de onde veio a inspiração para fazer seus livros infanto-juvenis, ressaltando que é uma soma de experiências que passou e também de referências a outros autores. Em “Doido pra Voar”, por exemplo, ele se baseou em renomados escritores como Caio Fernando Abreu, Erico Veríssimo e Clarice Lispector. Sobre esta obra, em especial, os alunos mostraram-se entusiasmados. “Doido pra Voar foi um livro que me marcou muito, foi um dos primeiros que gostei de verdade e li até o final. Com certeza lembrarei dessa história para o resto da minha vida”, disse Alan da Silva Fonseca, 14 anos, aluno da escola Piá.
Para finalizar o encontro, Hermes ensinou como ilustrou seu próprio livro, a partir da mistura de imagens reais com imagens inventadas. “Achei o Hermes bem espontâneo e divertido. Acho importante ter esse contato com os autores, saber como é a pessoa que escreve os livros que a gente lê. Isso acaba nos motivando a conhecer mais obras deles”, disse Letícia Freitas dos Santos, 13 anos, aluna da escola Piá.
Além de Hermes Bernardi Júnior, o município receberá personalidades importantes da literatura, como Uili Bergamin, David Coimbra, Christina Dias e Marô Barbieri. O ciclo 2011 do projeto será finalizado com o premiado escritor de livros infanto-juvenis Pedro Bandeira, no dia 7 de novembro. O “Autor nas Escolas” integra o projeto Nova Petrópolis Cidade Leitora e conta com o apoio do programa “A União Faz a Vida”.

Sobre Hermes Bernardi Júnior
Hermes nasceu no município gaúcho de São José do Ouro. Depois de residir em algumas cidades do estado, fixou residência em Porto Alegre onde iniciou sua carreira literária. Começou a publicar em 1998, ao lançar Abecedário Alegre do Porto, em edição financiada pelo Fumproarte/SMC. Desde então, são vários os títulos publicados para crianças e jovens em editoras do Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro. Alguns deles, indicados a prêmios.
Em 2004 passou a estudar Desenho e Pintura no Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre e tem participado de oficinas de ilustração com alguns destacados nomes de ilustração para livros infantis.
Em 2011, após assistir algumas palestras na área de Ciências Sociais, começou seus estudos na área através do EAD. Atualmente coordena oficinas e debates sobre a palavra e a imagem no livro infantil, além de escrever, contar histórias e ilustrar. Para professores, bibliotecários e mediadores de leitura ministra oficinas e realiza palestras que objetivam a qualificação do leitor.


Bianca Hennemann
Assessoria de Imprensa de Nova Petrópolis

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